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Archive for agosto \30\UTC 2010

Estou com câncer. De novo.
Já há alguns dias vinha pensando em escrever aqui sobre esse momento delicado pelo qual estou passando. Mas não queria que parecesse apelação, que as pessoas me vissem como uma dramática, contando publicamente minha luta. Nem tão pouco queria passar a imagem de mulher maravilha, me gabando de ser uma guerreira e etc.
Mas senti sim, a necessidade de falar sobre o que estou passando. Primeiro para dar um alerta às pessoas para que se cuidem, façam autoexames, vão ao médico regularmente e procurem manter um padrão de vida o mais saudável possível. Mas, principalmente, porque quero deixar registrado aqui minha experiência de quão maravilhoso e curativo é o poder do amor.
Este post é dedicado então a todas as pessoas que tem estado ao meu lado. Minha família, os médicos que cuidam do meu caso e os amigos, muitos até desconhecidos que, especialmente nesse momento, tem sido um bálsamo verdadeiro. Pessoas que tem me acompanhado pela vida, nos bons e maus momentos, me aceitando como sou, me respeitando e, de maneira emocionante, me amando e aceitando meu amor.
Alguns já sabem como tudo vem se passando. Para os que não sabem, um pequeno resumo:

No final de 2004 descobri uma pinta na nádega esquerda que se revelou um melanoma, já em estado bastante adiantado e com infiltração vascular. Para quem não sabe, o melanoma é um câncer de pele extremamente agressivo e traiçoeiro. Uma simples pinta pode se infiltrar pelo corpo e atacar, silenciosamente, órgãos vitais. Por isso, repito, se cuidem, consultem um dermatologista regularmente, façam autoexames.
Continuando, passei pelos procedimentos de praxe, exames, cirurgias, biópsia, etc. Fiz em seguida um ano de imunoterapia com uma droga chamada Interferon. Tive todos os efeitos relativos: muitas náuseas e vômitos, dores articulares, queda de cabelo, febre, etc. Em contrapartida tive, por parte da minha família e amigos, todo o apoio e carinho que fizeram a caminhada parecer menos árdua.
Segundo os médicos, durante cinco anos não falamos que estamos curados, mas em remissão. Muito bem, passei com louvor pelos meus cinco anos, que venceram em março desse ano, com direito a comemoração, cervejinha e tudo mais.
Só que nem sempre as coisas são assim definitivas. Em julho passado descobri um nódulo na virilha, já bem grande (pouco menor que um ovo). Meu médico supõe que ele estivesse escondido atrás da cabeça do fêmur e num dado momento, quando já estava grande demais, o próprio osso o empurrou para a frente. Bom, dou graças a Deus por isso. Se ele ainda estivesse escondido, as coisas poderiam estar piores.
Após os exames costumeiros, foram descobertos outros dois nódulos, um atrás do osso ilíaco e outro ao lado da aorta.
No próximo dia 02/09 (quinta-feira) estarei entrando em cirurgia para retirada dos nódulos e de toda a cadeia linfonodal. Será uma cirurgia delicada, de grande porte, grave e deverei permanecer hospitalizada em torno de uma semana.
Sei, em parte, tudo o que me espera depois. Claro que as coisas podem ser um pouco diferentes, mas no geral, o tratamento vai ser o mesmo e os efeitos também, acredito.
Devo dizer que estou com medo. Estou tensa, nervosa. Mas, afinal, eu sou humana. Tenho tentado manter a tranqüilidade e principalmente a fé, mas, claro, há momentos em que não consigo e desabo. Nessas horas, tenho sempre encontrado um ombro amigo que tem me dado suporte. Alguns são virtuais, mas nem por isso menos importantes.

Bem, como vocês sabem, adoro as palavras e estou sempre pesquisando, procurando suas origens e significados. Com o câncer não foi diferente. Descobri então que a palavra câncer vem do latim e significa caranguejo. A palavra foi cunhada pelo grego Hipócrates, o “pai da medicina”, como é conhecido. Dizem que ele a utilizou para descrever certos tipos de tumores por causa da semelhança entre as pernas do crustáceo e os tentáculos do tumor, que entranham nos tecidos saudáveis do corpo.
Alguns séculos depois, Galeno, um médico romano, que era considerado a maior autoridade na área, determinou que a doença era incurável e que, uma vez diagnosticada, havia pouco a fazer.
Hoje nós todos sabemos que Galeno estava equivocado. Creio que cada um de nós sabe de alguém que teve câncer e está curado.
Mas, mesmo com os avanços da medicina provando que hoje em dia há sim, muito que se fazer, especialmente em casos diagnosticados precocemente, quando descobrimos que temos câncer, passamos por sentimentos diversos, como o medo da morte, a interrupção, mesmo que provisória, dos nossos planos, o sofrimento físico causado pelo tratamento, além de preocupações financeiras.
Além disso, ainda nos deparamos com pessoas com idéias preconcebidas e falsas sobre a doença e que, na tentativa de ajudar, acabam, muitas vezes, nos deixando piores.
Há os fanáticos religiosos, segundo os quais, o câncer é um “castigo por você ter feito algo errado e que agora está tendo o retorno”. Nesse caso, toda a humanidade estaria cancerosa, visto que todos erramos, concordam?
A idéia de que o câncer está associado ao pecado existe na maioria das sociedades de cultura ocidental-cristã e apesar de eu a considerar um absurdo, ela pode às vezes nos afetar, em função de estarmos num momento de grande fragilidade.
Há os “psicólogos”. Esses sabem exatamente porque e quais são as pessoas que têm ou terão câncer. Nos analisam e apontam causas profundamente escondidas em nosso inconsciente que, segundo eles, geraram a doença. Dizem que nós mesmos “criamos” a doença. Mais culpa.
Tem também os especialistas, naturalistas. Recebi e recebo montes de e-mails com receitas infalíveis para “curar” o câncer. Graviola, carambola, raiz disso, semente daquilo, babosa com mel e uísque…
Por favor, não me entendam mal. Não estou desfazendo das boas intenções das pessoas. Até usei algumas receitas que recebi e pretendo usar novamente, elas ajudaram a aliviar efeitos colaterais, mas “curar” mesmo, é outra história.  
Há ainda aqueles que pensam como Galeno. A doença para eles é mesmo uma sentença de morte. Muitos se recusam até mesmo a pronunciar a palavra. Tenho me deparado com algumas pessoas assim, que ao me encontrarem, imediatamente assumem uma expressão piedosa e me perguntam se é verdade que estou com “aquela doença”. Ao que eu respondo sem temor: “Sim, estou com câncer”. Em geral, essas pessoas passam a me evitar a partir daí, como se o câncer também fosse contagioso.  
Às vezes sinto compaixão por tais pensamentos. Outras vezes, me rio. E assim, vou aprendendo a lidar com a doença e todas as implicações que vem com ela.
O que sei é que a tristeza e o medo são reações normais quando descobrimos que temos câncer. Todos que o tem passam por isso num momento ou outro. Há casos em que é necessário mesmo tratar a depressão. Eu mesma passei por isso no primeiro diagnóstico. A própria medicação reduz o nível de serotonina e pode desencadear crises depressivas.
O que sei, da minha experiência, é que preciso ter coragem. E fé. Alguns dias são melhores que os outros. Nem sempre consigo, mas na medida do possível, tento continuar com minhas atividades diárias, trabalhando, cuidando da casa e da minha filha, etc.
Infelizmente, o câncer ainda é uma doença que vem junto com um estigma terrível. Acredito que todas as pessoas tem medo de desenvolver a doença. Eu não sou diferente. Mas como disse antes, tenho sido cercada de cuidados e carinho por todos os lados, de todas as formas.
Acho que assim vai ficar impossível que esse “caranguejo” infiltre suas patinhas em mim…

Então, querem saber? Câncer grudado em mim? Só mesmo se for o “canceriano” Tom Cruise. Aposto que esse todas vocês vão querer também. Mas nem venham. Eu vi primeiro!!!!

P.S. Sempre que for possível, pretendo estar por aqui. Quando não puder, vocês sabem que terei meus motivos, né?

Meu coração, repleto de gratidão e amor para cada um de vocês. Beijo.

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Paciência

Saudade do meu blog, tadinho, meio abandonadinho ultimamente… Saudade de ler minhas próprias palavras e me surpreender, aprendendo comigo mesma, no exato momento em que escrevo.
Segundo Pablo Neruda, “Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias”.
Mas acho que ele também sabia que as palavras tem suas teimosias. Às vezes as palavras fazem pirraça, só vêm quando querem, por mais que os sentimentos estejam a flor da pele.
Então, enquanto minhas próprias palavras não conseguem expressar meus sentimentos, falo pelas palavras de Lenine, nessa música que expressa bem o que estou sentindo agora.

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para…

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara…

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência…

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência…

Será que é tempo que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara… tão rara…”

Saudades de vocês também, amigos que me lêem, comentam, me inspiram e me ensinam, muitas vezes, a ouvir minhas próprias palavras. Enquanto elas não vêm, só posso lhes pedir… paciência!

Um beijo a todos. Eu volto.

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