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Archive for janeiro \08\UTC 2012

Deixem-me Voar!!!

Ninguém pensa que vai morrer. Ou melhor, ninguém gosta de pensar que vai morrer. Ninguém gosta de falar sobre isso. Tá certo, não é um assunto que se possa chamar dos mais simpáticos. Não é um papo que ninguém gostaria de ter numa mesa de buteco, tomando uma cervejinha, comendo um tiragosto… Tá certíssimo. O assunto incomoda. Então eu vou pedir, com todo o respeito, para quem se sentir incomodado que não leia a minha nota. Porque é sobre isso que eu quero falar hoje.
Eu também já me senti muito incomodada em falar sobre a morte. Principalmente se fosse a minha. Aliás, não me lembro nunca de ter falado sobre a minha morte. Eu, heim? Nem morta!!! 🙂
Mas.. tem algumas coisas que a gente só começa a pensar quando surge a possibilidade “de”. Claro, pra todo mundo existe essa possibilidade. Como dizia meu pai, “pra morrer, basta estar vivo”. O que eu quero dizer é que a gente só começa a refletir sobre a morte (ou seria sobre a vida?), quando acontece alguma coisa que nos leva a isso. Quando pensamos, imaginamos ou pressentimos que ela está rondando. Uma doença grave, por exemplo. Foi assim que aconteceu comigo. Aliás, no meu caso, foi preciso esse “alguma coisa” bater duas vezes na minha porta. Sim, porque da primeira vez eu não dei muita importância. Não levei a sério, não acreditei que fosse sério. Ou seja, a ficha não caiu.
O tempo passou, a vida continuou e, de repente… bateram novamente à minha porta. Não que eu (ou quem quer que seja) possa afirmar que dessa vez seja mais grave. Ou que eu vá abrir a porta. Aliás, continuo não tendo a intenção. Mas a verdade é que quando essa senhora bate à porta, ela não costuma ser muito educada. Não espera que abramos. Muitas vezes, ela entra sem pedir, arromba a porta. Daí a necessidade que eu vejo de aprendermos a falar sobre ela. A aceitar com naturalidade a sua visita. A “preparar a casa” para essa visita. Porque ela vai chegar um dia. Sendo convidada ou não.
O medo é natural. Falar sobre morte sempre gera um mal estar, um desconforto porque, independente de religião ou crença, quase todos vemos a morte como finitude. Que eu saiba, até hoje ninguém pôde afirmar com absoluta certeza o que tem do outro lado. Então, o que temos medo de verdade é do mistério, do desconhecido.
Pois bem, desde que senti de perto a possibilidade “de”… comecei a me interessar um pouco mais sobre o assunto. Não de maneira mórbida ou masoquista. Mas como uma necessidade de estar em dia, dentro do possível, com minhas contas, meus débitos. A sensação da possibilidade me fez rever muitos conceitos, trabalhar por muitas mudanças, especialmente interiores. E me fez enxergar também a morte de maneira mais natural, sem desespero. Há muitas culturas que encaram a morte naturalmente, não como fim, mas como uma passagem para uma próxima etapa.
No islamismo não há período de luto. A morte é encarada como um fato natural. No budismo, cultua-se a gratidão pelos que se foram e o aprendizado sobre a inevitabilidade da morte. Numa tradição japonesa, são oferecidos barquinhos com velas para os entes queridos, lançados em rios, para que a alma encontre a iluminação durante a travessia para o outro mundo. Acho isso até poético!
Nas sociedades hindus a morte é interpretada como a via de acesso ao Absoluto, ao Eterno e à paz originária. Os hindus não procuram a sua permanência na terra. Uma lenda desta sociedade, diz que quando a “mãe terra” se encontrava sobrecarregada de pessoas, apelava ao deus Brahma, que enviava a “mulher de vermelho”, que representa a morte, na mitologia ocidental. Tava na hora mesmo de trocar aquele pretinho básico por uma coisinha mais vibrante!!!


Bom, posso dizer hoje que já consigo compreender melhor e até aceitar com relativa serenidade a questão da morte. Claro que a tristeza é inevitável. Há a saudade que vai sempre causar dor. A serenidade de que falo não quer dizer esquecer os sentimentos ou ficar indiferente. Mas acreditar firmemente na existência de um espírito e da continuidade deste. Então, posso dizer também que a doença e a possibilidade “de”, trouxe um ganho, um aprendizado. Que desejo sinceramente ir colocando em prática. Para que quando a indesejada das gentes chegar, eu possa dizer, como Manuel Bandeira: “O meu dia foi bom, pode a noite descer. Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”.
E pra finalizar essa conversinha chata, quero dizer que não sou uma fortaleza. Tenho meus receios, meus temores. Mas não da morte e sim do morrer. Como lindamente explica Rubem Alves, meu tão amado Rubem Alves:
“Eu, por enquanto, não quero morrer. Já tive medo de morrer. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Mas tenho muito medo DO morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo contra a minha vontade (sem que eu nada possa fazer porque já não sou mais dono de mim mesmo), solidão (porque ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte) e medo de que a passagem seja demorada.”
Desejo e espero que os que me amam respeitem, mesmo que não concordem, o meu desejo de que essas dores me sejam evitadas, se for possível. Não quero que tentem me segurar, que me prendam. Como fizeram com o velhinho querido, amigo do Rubem:
“…um velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama, em meio aos fedores de fezes e urina e de repente o acontecimento desejado, libertador: seu coração parou.
Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda que assim punha um fim à sua miséria! Aquela parada cardíaca era o último acorde da sonata alegre que fora a sua vida! Mas o médico, movido pelos automatismos éticos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever: debruçou-se sobre o velhinho morto e o fez viver de novo.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Mas o que é vida? Mais precisamente: o que é vida de um ser humano? Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a chance de sentir alegria ou gozar a beleza o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, no meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, a ouviriam dizer:
“Sou um pássaro engaiolado. Abram a porta! Deixem-me voar!”

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