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Archive for junho \17\UTC 2012

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
Sinceramente, sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas
 
A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheia do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já tô ficando especialista em renascimento
Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo…
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha…
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!
 
Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois, ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela, corta os cabelos, muda a maquiagem, reinventa modelos
Reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: “Onde cê tava? Tava sumida, morreu?”
E a gente com aquela cara de fantasma moderno, de expersona falida:
– Não, tava só deprimida.
Por Elisa Lucinda

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Reeditado. Porque não se passa pelo vale da sombra da morte uma só vez na vida…

Alguns estudiosos bíblicos dizem que quando Davi, no Salmo 23, se referiu ao Vale da Sombra da Morte ele falava de uma estrada que ligava Jerusalém a Jericó. Era um caminho íngreme, sinuoso, uma descida de mais de 1000 metros, em apenas 27 quilômetros, cercado de malfeitores que emboscavam os que passavam por ela. Diziam que era tão perigoso, que a própria morte se tornava a sombra de quem ousasse passar por ali.

Eu vejo o vale da sombra da morte hoje, como uma representação simbólica da depressão. Das nossas aflições e angústias mais graves. Daqueles momentos de nossa vida que, se pudéssemos, jamais enfrentaríamos. Onde nenhum de nós, realmente, quer estar.
Quando estamos em depressão profunda, além de medo, da desesperança, nos sentimos, verdadeiramente, no “fundo do poço”.
Essa é outra expressão simbólica, para representar o sentimento de ter chegado ao limite, a um ponto onde as forças se esgotam, onde o chão parece sumir sob nossos pés e nos sentimos suspensos em um abismo sem ter onde segurar.
Acredito que a expressão pode ter tido origem também numa história bíblica, a de José do Egito. Vítima da inveja e ciúmes de seus irmãos, ele foi lançado no fundo de uma cova e deixado ali sozinho, sem nenhuma perspectiva de poder sair.

É assim que nos sentimos quando estamos em depressão. Sem perspectiva, sem esperanças de melhora, acreditando mesmo que toda aquela dor nunca vai passar.
Sabemos, racionalmente, que sim, vai passar. Mas a depressão não é uma doença que passa pela razão. E também não é uma simples tristeza ou uma simples crise momentânea de melancolia. Não. Depressão e tristeza não são sinônimos. Embora muita gente pense assim.
Existe, ainda hoje, um grande preconceito contra a depressão. Os que não a compreendem acham que trata-se de fraqueza, frescura, melindres de quem não tem mais o que fazer. Acham que a pessoa deprimida deveria levantar a cabeça, ter força de vontade. Alguns dizem mesmo que a pessoa não está lutando, que parece não querer sair do buraco. O grande problema é que a pessoa, mais do que ninguém, quer sim, sair desse quadro. Mas em alguns casos ela simplesmente não consegue.
Assim, como se não bastassem todos os sintomas que sofre, a pessoa com depressão ainda tem que lidar com a culpa por estar sentindo o que sente.

Mas, porque o preconceito, porque a incompreensão?
O que acontece, é que não fomos preparados para a dor, para o sofrimento, para a tristeza. Nem para a nossa nem para a do outro.
Então, quando alguém à nossa volta manifesta o menor sinal de que está triste, com dor, sofrendo, nos desesperamos. Não sabemos como agir. Enchemos a pessoa de mensagens do tipo auto-ajuda. Ou então ignoramos, fingimos que não estamos vendo a dor do outro, levamos na brincadeira ou, pior, agimos como se a pessoa estivesse fazendo drama. Não sabemos mesmo lidar com alguém que sofre. Talvez porque a dor do outro nos remeta à nossa própria. E não sabemos lidar com isso.
Por isso, geralmente, quando estamos tristes, quando estamos sofrendo, tentamos disfarçar, esconder, sufocar.
Crescemos ouvindo que “homem não chora”, que depressão é coisa de gente fraca, que o desespero é prá quem não tem fé.
Cazuza, na música “Down Em Mim”, dizia que “pega mal sofrer”. Roberto Carlos dizia “não quero ver você tão triste assim”…
É difícil aceitar que a dor faz parte. Mas faz. Ficar triste, sofrer, sentir dor, angústia… tudo isso faz parte da natureza humana, da vida. Também fazem parte a dúvida, o medo, as lágrimas e até a revolta. São sentimentos tão legítimos quanto a alegria, o riso, a felicidade. E isso não diminui ninguém. Ao contrário, nos faz crescer.

O fundo do poço, o vale da sombra da morte é realmente um lugar horrível de se passar. É um lugar de solidão profunda, provoca mesmo muito medo, muita angústia, muito desespero. Ainda assim, é o lugar onde aprendemos, de fato, a enfrentar as dificuldades da alma.
Para chegar aos pastos verdejantes e de águas tranqüilas, é preciso passar pelo vale da sombra da morte. Pode até haver algum atalho, algum caminho mais fácil, mas só quem passa pelo vale da sombra da morte aprende a valorizar mais a própria vida, compreender a dor do outro e acreditar que há sim, uma luz no fim do túnel.

 Enquanto escrevia esse texto, me lembrei de uma música dos Titãs. Compartilho com os que sabem o que é, de fato, estar no vale. Que possamos aprender que a cura vem através da dor. Que não tenhamos vergonha nem medo de enfrentá-la…

Não fuja da dor – Titãs

Não tome comprimido. Não tome anestesia.
Não há nenhum remédio. Não vá pra drogaria.
Deixe que ela entre. Que ela contamine.
Que ela te enlouqueça. Que ela te ensine
Não fuja da dor. Não fuja da dor.
Não tome novalgina. Não tome analgésico.
Nenhuma medicina. Não ligue para o médico.
Deixe que ela chegue. Que ela te determine.
Que ela te consuma. Que ela te domine.
Não fuja da dor. Não fuja da dor.
Querer sentir a dor. Não é uma loucura.
Fugir da dor é fugir da própria cura.

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