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Archive for julho \21\UTC 2012

Pois é. A bendita pedra no caminho do Drummond parece que resolveu dar cria. Cada vez que eu consigo passar por uma e vou seguindo meu caminho novo, pronto, aparece outra.
Eu, que adoro parafrasear, já tava me sentindo meio Gonzaquinha: “E é como se então de repente eu chegasse ao fundo do fim.” Bom, o fundo do fim tava uma beleza. Já era fundo e já era fim. Então, não tinha mais jeito de descer, da coisa “encompridar”, como dizemos nós, bons mineiros. Era só subir!!! Eu só tinha me esquecido o resto da música do Gonzaguinha: De volta ao começo…

E assim, lá vou eu de novo, meus amigos. Quem me acompanha sabe da verdadeira UFC que eu venho enfrentando há 7 anos contra um melanoma. Vê se pode!!! Uma miserável duma pintinha preta que me apareceu bem na bunda! Desculpem o palavreado. Eu podia falar como os médicos, “lesão na nádega”… ou ainda “pigmento na região glútea”. Mas não. Eu ainda to meio puta pra ficar medindo as palavras. Foi uma porcaria de uma pinta na bunda mesmo! 

Mas, voltando ao começo… já escrevi aqui no Nanbiquara sobre como tudo começou e como a coisa vinha se desenrolando. Sim, eu achei mesmo que tava “desenrolando”.  Nos últimos meses meus exames se mantinham normais. Não fiquei curada, mas a doença estava estável, sem sintomas. Eu estava fora das químios desde setembro do ano passado, recuperei o peso, estava trabalhando e levando vida normal. Aí me deparo novamente com a pedra no meio do caminho…
Na última semana tive um pequeno mal estar que me levou ao hospital e à tradicional bateria de exames que todo neoplásico tem que passar mesmo que tenha uma simples gripe. E parece que a fera adormecida resolveu dar uma espreguiçada. Estou com uma infecção e novos nódulos, além de os já existentes terem aumentado significativamente.
Bom, os próximos passos serão terminar de tomar um antibiótico (que já comecei) para combater a infecção e em seguida, nova internação, nova cirurgia. Desta vez, saem de campo o baço, uma cadeia de linfonodos do lado esquerdo do abdômen e mais um pedaço da virilha, onde há uma massa inguinal acometida. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco resolvem me cortar a perseguida!!! Deus me livre!!!!
Depois do pós operatório, provavelmente, volto às químios e àquela lenga lenga de sempre… emagrecer, enjoar, vomitar, ficar careca. Ainda bem que guardei todos os meus lencinhos e meu lindo Panamá pretinho básico!!!
Bom, dizem que o que é da gente, ninguém pode passar por nós. Então, lá vou eu. Até porque, jamais, nem que me fosse possível decidir isso, eu ia querer que alguém passasse por mim pelo que estou passando.

Então é isso, gentem… De vez em quando dou umas sumidas, me acabo de chorar, não atendo o telefone, finjo que não estou… e espero que vocês compreendam. Nunca foi fácil e agora está menos ainda. Aquela fodona, corajosa, valentona… já não é mais a mesma. To triste demais, cansada, não consigo dormir há dias, to com medo. Queria que o Capitão Nascimento aparecesse e dissesse pro melanoma: Pede pra sair!!!!
Mas como isso não vai acontecer (até porque se o Capitão Wagner “Nascimento” Moura me aparece bem na frente eu já morro de vez de tanta emoção!!!), o negócio é enfrentar a coisa. Com a cara e a coragem. Ta bom, uma coragenzinha meio sem vergonha dessa vez, mas vou.

Preciso pedir um favor, gentem… e por Deus, não me entendam mal, mas não me peçam pra ser forte, pra ter fé, pra não desanimar. Não me digam que a minha cura depende de mim, que não posso ter pensamentos negativos, que tenho que ser otimista sempre. Tenho feito tudo isso na medida do meu possível. Mas eu sou humana. E penso que ninguém deve ser intimado, obrigado a manter a calma numa hora dessas.
As cobranças a quem tem câncer sempre são muito desgastantes. Especialmente quando nos pedem para ser otimistas e dizem que nossa cura depende disso. Nem sempre conseguimos ser otimistas. E não dá pra, além de tudo, ainda ter que sentir culpa por não conseguir ser otimista e acabar, dessa forma, sendo responsável pela própria desgraça. Por favor! Isso chega a ser cruel com quem já ta no limite.
Acredito sim, que em algum momento, num plano espiritual, eu escolhi, por algum motivo, passar por isso. Mas não quer dizer que eu seja culpada de alguma coisa. Qualquer um pode passar por isso. Rico, pobre, branco, preto, religioso, ateu… Até as celebridades tem câncer. Somos todos iguais. E todos precisamos ter esse tempo de chorar, espernear, se revoltar… Porque se a pessoa se faz de forte o tempo todo e engole os próprios sentimentos, aí mesmo é que a coisa toma conta.

Peço muito que vocês compreendam esse desabafo. Sei que as intenções são as melhores. Agradeço. Agradeço sempre. E amo cada um dos que estão torcendo por mim.
Se puderem, conversem comigo. Sem receios, sem constrangimentos. Sem fingir que não ta acontecendo nada. Estou bem consciente da gravidade da minha situação, não pretendo ficar me fazendo de coitadinha, mas às vezes precisamos falar. E precisamos que nos ouçam apenas. Sem nos olharem com cara de piedade, mas também sem ficar tentando fazer parecer que o que temos é fichinha e vamos superar com um pé nas costas. Não é bem assim. Talvez eu passe por tudo o que passei nas outras duas vezes. Talvez não. São medicamentos diferentes, momentos diferentes. Mas há um sofrimento. Talvez eu fique careca de novo. E vou chorar por isso de novo. Mesmo sabendo que cabelo é o de menos, que o importante é viver, que cabelo nasce de novo. Mas tudo isso faz parte e eu não quero ter que ficar fingindo que estou super tranqüila só pra passar a imagem de “mulher guerreira” ou pra não decepcionar as pessoas.
Respeito muito a crença, a fé e a maneira de pensar de cada um, mas eu sei até onde a minha corda está esticando. Me ajudem nisso, se puderem. E espero que vocês continuem na brecha comigo.

Beijo a todos!

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Cuidado! Frágil!

Fui despertada hoje pelo rádio relógio, já no finalzinho de uma música da qual não me lembro. Mas me lembro muito bem do locutor dando bom dia e dizendo, a seguir, uma fala bem conhecida de quase todos nós: “Não é engraçado? Você pode acertar muitas vezes. Raramente alguém vê. Aí, um dia, você erra. E todo mundo vê!”

Passei o dia trabalhando e me pegando em alguns momentos a pensar sobre isso. Como é difícil ser imperfeito! Especialmente quando as pessoas esperam que você seja perfeito. 
É muito comum as pessoas dizerem que nos aceitam como somos, que estão sempre prontas a perdoar, a compreender. Mas, como diz a velha e conhecida frase, “a teoria, na prática, é outra”. Ao primeiro deslize, a história muda de figura. Muitas vezes um sentimento apregoado como enorme, grande, forte, sincero, não sobrevive a um erro. Há pessoas até que se ensoberbecem, enchem a boca pra proclamar que não perdoam, não dão segunda chance.
É… existem relações muito frágeis mesmo. Que não admitem falhas! Que pena…
Pensando sobre isso, acabei me lembrando de um outro texto que li num blog. O autor, Alaor Koraicho, compara pessoas à cidades…

Falhas 

“Uma das coisas que fascina em San Francisco é ela estar localizada sobre a falha de San Andreas, que é um desnível no terreno da região que provoca pequenos abalos sísmicos de vez em quando e grandes terremotos de tempos em tempos. 
Você está mui faceiro caminhando pela cidade, apreciando a arquitetura vitoriana, a baía, a Golden Gate, e de uma hora para outra pode perder o chão, ver tudo sair do lugar, ficar tontinho, tontinho. 
É pouco provável que vá acontecer justo quando você estiver lá, mas existe a possibilidade, e isso amedronta mas ao mesmo tempo excita, vai dizer que não? 
Assim são também as pessoas interessantes: têm falhas. 
Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você quase morre de tédio. Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. 
É natural que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize. 
Pessoas, como cidades, precisam ser limpas mas não a ponto de não possuírem máculas. 
Pessoas, são como cidades, funcionam, mas não são previsíveis. De vez em quando, sem abusar muito da licença, são insensatas, ligeiramente passionais, demonstram um certo desatino, vão contra alguns prognósticos, cometem erros de julgamento e pedem desculpas depois, pedim desculpas sempre, pra poder ter crédito e errar outra vez. Nunca devemos esquecer que pessoas, assim como cidades, têm rachaduras internas e podem surpreender.”

Uma comparação realmente interessante. Sim, pessoas erram. Enquanto forem pessoas. Resta saber se queremos mesmo ter pessoas ao nosso lado. Se queremos criar vínculos, laços com pessoas reais. Se estamos dispostos a compreender, tanto quanto queremos ser compreendidos. 
Porque quando não compreendemos, não perdoamos, não aceitamos, não estamos sendo amigos. Estamos sendo arrogantes. Afinal, quem sou eu pra querer um outro perfeito, que nunca erre comigo? Serei o único exemplar de pessoa perfeita na face da terra? Se for assim, claro, não há que haver perdão. 
Caso contrário, vale lembrar da linda definição de amizade feita por Drummond: 
“Amizade é isto mesmo: salta o vale, o muro, o abismo do infinito”. 

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