Feeds:
Posts
Comentários

Archive for outubro \05\UTC 2012

Muito bem, aqui estou eu de novo. De volta. Preparada para continuar, para tentar novamente. Por livre e espontânea pressão, precisei de um tempo. Brinco que foi um período de TPM: Tempo Para Mim.
Claro, não tirei esse tempo assim, por iniciativa própria, para descansar ou refletir, como muita gente gosta de fazer de vez em quando. Me afastei, quem me acompanha sabe, para mais uma etapa do tratamento contra o melanoma. As metástases se espalharam um pouco mais e fui  submetida a uma cirurgia chamada esplenectomia e pancreatectomia. Isso quer dizer que foram retirados o baço e um pedaço do pâncreas, que a medicina chama de “cauda” do pâncreas. Eu nem sabia que o danado tinha cauda… 🙂
Dessa vez estive um pouco mais nervosa. Não antes da cirurgia. Eu sei que vou estar sedada, então, normalmente não fico muito ansiosa. O pós é que foi complicado. Já falei aqui como sou mole com dores. Aguento exames complicados, cirurgias, podem me virar do avesso, mas quando sinto dor, me descontrolo.
Já na sala de recuperação, quando acordei, senti dores horríveis. Era como se estivessem me dando punhaladas no abdômen, debaixo das costelas, até as axilas e pescoço. Só fui saber, no segundo dia, que, como uma parte da cirurgia foi por vídeo, o médico injeta CO2 para expandir o abdome. Esse gás não pode ser expelido pelas vias naturais, nem por cima e nem por baixo, se é que vocês me entendem. Ele vai sendo consumido aos poucos pelo próprio organismo. Então, ele fica circulando no corpo da gente, procurando cavidades onde se alojar e isso provoca as dores. Felizmente, o anestesista permaneceu durante um tempo comigo na recuperação e graças a ele e uma dose dupla de morfina as dores melhoraram.

Como sempre, minha família esteve ao meu lado o tempo todo. Às vezes, quando falo sobre minha família, algumas pessoas costumam achar que sou muito coruja, que qualquer família faria isso por um parente doente, etc. Mas não, gente. Me considero privilegiada e abençoada por poder contar com cada um deles. É um amor incrível, uma dedicação natural. Todos deixam tudo de lado para estar comigo. Isso é o que me ajuda a ter coragem para prosseguir.
Saí do hospital direto para a casa da minha irmã caçula, num sítio afastado de Belo Horizonte. É um lugar lindo, cheio de verde, um clima muito gostoso, uma paz indescritível. Lá também fui cercada de mimos e claro, aproveitei. Temos uma amiga muito querida, a Cida, que trabalha com minha irma, que não mede esforços pra me agradar. São comidinhas especiais, chazinhos, suquinhos… enfim, tanto carinho que não tenho palavras para agradecer.

Agora, o próximo passo será o retorno às quimioterapias. Dia 15 tenho consulta na oncologia e será decidido quando e como será dessa vez. Essa parte me chateia bastante. Sou aquela, lembram, que sente todos os efeitos colaterais dos medicamentos. Mas uns amigos me indicaram um medicamento que, dizem, é fantástico contra os enjôos das químios e pretendo experimentar. Também aprendi com esse tempo todo alguns macetes, uns tipos de sucos e alimentos que me fazem muito bem. Suco de graviola, de carambola, picolé de limão, gelatina… Como em tudo tem coisas boas, trocamos muitas idéias lá na oncologia e um ensina o outro coisinhas que vão nos ajudando a suportar melhor. Então, me sinto preparada para mais essa etapa.
Aproveitei esse período de “TPM” para ler e fortalecer meu espírito também. Assim, espero enfrentar com coragem esse novo tempo que vem vindo.

E falando sobre tempo, como não poderia deixar de ser, termino esse post citando meu querido Rubem Alves, que parece ter sempre a palavra certa, no momento certo…

“O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro.
Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber: centésimos de segundo. Que posso sentir num centésimo de segundo? Que posso viver num centésimo de segundo? Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas”: “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”.
Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias. Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração. Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.“

“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.”

E então, eu escolho o tempo medido pelas batidas do coração. E o aproveito para me dedicar ao que é essencial para mim: vocês todos. Minha família, meus amigos!!!
Obrigada pelo tempo que temos tido juntos. Que ele seja sempre muito bem aproveitado. E feliz!

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: