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Archive for maio \27\UTC 2013

Em Obras

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No espelho, olhos nos olhos, reconheço três inimigos em minha alma. Eu os encaro, mas sei: há tempo eles me espreitam desde as esquinas das madrugadas insones. Crio coragem para chamar os três adversários pelo nome: fracasso, impotência e culpa.

Fracasso é sentimento, não constatação. Não é necessária qualquer derrota para alguém se sentir fracassado. Portanto, sentimento de fracasso vem com o destreino de lidar com inadequações. Depois de décadas absorvendo um discurso de perfeição, sofro desse sentimento. A minha fraqueza parece maior do que realmente é. Sem ter acertado alvos, o peso de incontáveis erros agride. Demandas religiosas, familiares ou sociais deixam qualquer um arfando. A fadiga de ter que dissimular inaptidões sulca rugas profundas.

Continuo caloura, desafino a melodia da vida. Piso na bola. Perco belos gols a poucos metros da trave. Se me entrevistarem sobre convicções, sei, vou gaguejar. Faço meu caminho, mas tropeço nos cadarços soltos. Obrigada a ouvir todos os dias um discurso de perfeição, arquejo. Não galguei os degraus da piedade.

Sobram pregadores da culpa, especialistas em conscientizar qualquer um sobre as exigências divinas. Só agora entendo as pessoas que frequentam alguma religião porque gostam de se constrangerem com suas imperfeições.

Diante do espelho, despedaço o ícone que tentei fazer de mim. Não alimento o mito. Aconselho a alma a permanecer comum. Lembro a mim mesma que nenhuma máscara pode ficar grudada na cara quando eu estiver só.

Os anos passaram. Agora, mais do que nunca, vejo-me obrigada a admitir impotência. Vai chegando ao fim a minha alucinação de inteligência. Que bobagem imaginar-me genial. Nada me chegou fácil. Aprendi devagar. Continuo esquecendo o que decoro. Saber muito nunca me ajudou na perspicácia. Fui bronca na hora de antecipar incidentes. 

Depois que admito fracasso, impotência e culpa, faço as pazes comigo mesma na solidão do espelho. Pergunto sozinha: quem subiu o sarrafo tão alto? De onde veio a possibilidade de controlar as variáveis da existência? Qual o sentido terapêutico da culpa? Autocomiseração serve a quais interesses?

Não preciso desempenhar para ser aceita – quem mente para si mesmo nunca será livre. Não quero ser perfeita – despistar sentimento só apequena a vida.

Ergo a cabeça. Meu valor não depende de cumprir roteiros alheios. Pisoteio o sentimento de fracasso. Procuro desdenhar os acenos da vaidade. Faço de tudo para transformar a culpa em aliada.

(Adaptação de Ricardo Gondim em “Na frente do espelho”)

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