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Em Obras

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No espelho, olhos nos olhos, reconheço três inimigos em minha alma. Eu os encaro, mas sei: há tempo eles me espreitam desde as esquinas das madrugadas insones. Crio coragem para chamar os três adversários pelo nome: fracasso, impotência e culpa.

Fracasso é sentimento, não constatação. Não é necessária qualquer derrota para alguém se sentir fracassado. Portanto, sentimento de fracasso vem com o destreino de lidar com inadequações. Depois de décadas absorvendo um discurso de perfeição, sofro desse sentimento. A minha fraqueza parece maior do que realmente é. Sem ter acertado alvos, o peso de incontáveis erros agride. Demandas religiosas, familiares ou sociais deixam qualquer um arfando. A fadiga de ter que dissimular inaptidões sulca rugas profundas.

Continuo caloura, desafino a melodia da vida. Piso na bola. Perco belos gols a poucos metros da trave. Se me entrevistarem sobre convicções, sei, vou gaguejar. Faço meu caminho, mas tropeço nos cadarços soltos. Obrigada a ouvir todos os dias um discurso de perfeição, arquejo. Não galguei os degraus da piedade.

Sobram pregadores da culpa, especialistas em conscientizar qualquer um sobre as exigências divinas. Só agora entendo as pessoas que frequentam alguma religião porque gostam de se constrangerem com suas imperfeições.

Diante do espelho, despedaço o ícone que tentei fazer de mim. Não alimento o mito. Aconselho a alma a permanecer comum. Lembro a mim mesma que nenhuma máscara pode ficar grudada na cara quando eu estiver só.

Os anos passaram. Agora, mais do que nunca, vejo-me obrigada a admitir impotência. Vai chegando ao fim a minha alucinação de inteligência. Que bobagem imaginar-me genial. Nada me chegou fácil. Aprendi devagar. Continuo esquecendo o que decoro. Saber muito nunca me ajudou na perspicácia. Fui bronca na hora de antecipar incidentes. 

Depois que admito fracasso, impotência e culpa, faço as pazes comigo mesma na solidão do espelho. Pergunto sozinha: quem subiu o sarrafo tão alto? De onde veio a possibilidade de controlar as variáveis da existência? Qual o sentido terapêutico da culpa? Autocomiseração serve a quais interesses?

Não preciso desempenhar para ser aceita – quem mente para si mesmo nunca será livre. Não quero ser perfeita – despistar sentimento só apequena a vida.

Ergo a cabeça. Meu valor não depende de cumprir roteiros alheios. Pisoteio o sentimento de fracasso. Procuro desdenhar os acenos da vaidade. Faço de tudo para transformar a culpa em aliada.

(Adaptação de Ricardo Gondim em “Na frente do espelho”)

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Depois do meu post nostálgico sobre serenatas e lembranças da juventude, tenho que admitir… não é fácil envelhecer.
Existem ainda muitos tabus sobre a velhice e a morte, sendo a primeira considerada quase um eufemismo para a segunda. Poucas pessoas gostam de falar sobre isso, a não ser quando se torna necessário.
Mas é possível enfrentar as duas com dignidade. Especialmente se estamos ao lado das companhias certas.
Querem ver isso com muita clareza? Assistam ao emocionante “E se vivêssemos todos juntos?”, de Stéphane Robelin.
O filme trata de velhice, proximidade da morte, solidão. Mas acima de tudo, fala de parceria, otimismo, alegria de viver e, sobretudo, de amizade incondicional.

O fotógrafo Claude é um feliz Don Juan da terceira idade. Mas quando ele sofre um ataque cardíaco, seu filho decide colocá-lo num asilo. Isso soa como um estopim curtíssimo para seus amigos.
Ao vê-lo preso numa cama dessa chamada “Casa de Repouso”, eles se unem e resolvem tirá-lo de lá. Fogem então com ele em uma cadeira de rodas, para dividirem o mesmo teto, numa espécie de república muito bem humorada.
Juntos, eles esperam que seus últimos anos de vida seja algo maior e mais significativo que a triste espera pelo inevitável.
A convivência, claro, nem sempre é pacífica, mas é repleta de momentos de amizade, companheirismo e solidariedade.
Entre passeios e vinhos, lágrimas e risadas, eles compartilham preciosos momentos de lembranças e recordações e até mesmo alguns segredos um tanto inconvenientes.
Todos tem pressa. Viver o aqui e agora é imperioso. Estarem juntos é imprescindível. Eles sabem que estão indo todos para o mesmo lugar, mas isso não vai impedi-los de viver intensamente cada um dos dias que lhes restam.
Uma lição de vida, amor, amizade, solidariedade e coragem.

É difícil envelhecer? Sim. Mas em “E Se Vivêssemos Todos Juntos?” aprendemos que esse pode ser um final feliz pra quem tem coragem de viver de verdade.

Em Cima do Salto

Não criei esse blog com esse objetivo, mas quando tive, em 2010, a primeira metástase do câncer primário que me foi diagnosticado em 2005, achei importante compartilhar com meus amigos e leitores sobre como tudo começou e o caminho que venho trilhando desde então.
Esse compartilhar tem como foco deixar as pessoas que me amam e me acompanham a par das minhas notícias, para que torçam e continuem comigo nessa caminhada e também para dividir com outras pessoas que, porventura, estejam passando por situação semelhante, o meu (parco) conhecimento, as minhas experiências.
Durante todo esse período, desde que contei sobre a doença, tenho recebido um grande número de mensagens, por e-mail, pelo Facebook, nos comentários aqui do blog… Algumas mensagens muito fortes, outras amorosas, muitas de troca de experiências, mas todas cheias de carinho e apoio. Todas me emocionam muito. Quem já passou ou está passando pelo mesmo que eu, bem sabe como é essencial ter esse apoio, mesmo que distante, mesmo que virtual.

Sei que ao compartilhar essas coisas tenho me exposto um pouco. Bastante, talvez. Mas não me arrependo de fazê-lo. Dividir minha luta com vocês tem me tornado mais forte, mais positiva. Aqui fiz grandes amigos, conheci outras histórias, mantenho contato por e-mail, por telefone e até pessoal com pessoas que conheci por meio dessas postagens.

Bom, volto ao assunto agora. Alguns de vocês sabem que fiz, ontem, um novo exame, após 2 meses da cirurgia de retirada do baço e cauda do pâncreas. Sei que esperavam, ansiosos como eu, pelo resultado e vim aqui contar.
Infelizmente, não foi um bom resultado como eu estava esperançosa. Tão pouco tempo da cirurgia e já estou com nova metástase. Um pequeno tumor no que os médicos chamam de “leito operatório”, ou seja, no mesmo local de onde foi retirada parte do pâncreas.
É um nódulo pequeno, mas vai exigir cuidados. Como o tempo da cirurgia foi muito curto para seu surgimento, a chance de ele crescer rapidamente é grande. Ainda não passei pela minha oncologista, mas os médicos do Mater Dei já me adiantaram que o mais acertado nesse caso é o retorno às quimioterapias.
Como já contei pra vocês, o melanoma, no estágio em que se encontra, é incurável (salvo intervenção divina, se Ele quiser), então, o tratamento a que estou sendo submetida é paliativo. Tem como foco retardar a doença ao máximo, tentar evitar o aumento exagerado dos tumores e o acometimento de órgãos vitais como pulmão, ossos, fígado e cérebro.
Tenho surpreendido a toda equipe médica que me acompanha. Já foram feitos alguns estudos, outros estão se iniciando, mas até agora, não se sabe o que há em meu organismo que, de alguma forma, está me protegendo, já que nos casos de metástases como o meu, são raros os pacientes que sobrevivem mais de dois anos. Já estou entrando no oitavo ano desde o diagnóstico.
Meu coração me diz que o que está me protegendo não está dentro do meu organismo, mas fora. Mais precisamente, lá em cima. Sei que vocês me entenderam.

Mesmo assim, apesar de toda a força que tenho recebido, apesar da minha humilde e pequena fé, tenho tido momentos de muita tristeza. Faz parte do processo. Sou uma pessoa, não sou uma heroína de ficção. Já disse isso aqui e repito: não quero engolir minha dor e me fingir de super poderosa só pra não decepcionar os que crêem em mim e na minha força. Tenho meus momentos de fraqueza, choro muitas vezes, especialmente nas madrugadas. Não por medo de morrer, mas por tristeza mesmo em pensar que posso deixar as pessoas que amo, principalmente minha filha. Mas não me condeno, não me recrimino por isso. Aceito e espero passar. Sempre passa. E eu levanto a cabeça de novo, enxugo os olhos e retomo a caminhada. Porque sei que tenho a quem dar a mão na hora dos tropeços. Vocês. Meus amigos, minha família, meu Deus!!!
Não vou descer do salto assim tão fácil!

Dizem que quando estamos envelhecendo, começamos a ficar saudosistas. Ou quando começamos a ficar saudosistas é porque estamos envelhecendo.

Faz sentido. As crianças, adolescentes e jovens vão ter saudades de quê, se o momento deles está acontecendo agora?
Não que nós, que já passamos um pouquinho dos 30, não tenhamos ainda bons momentos. Temos, temos muitos.
O saudosismo a que me refiro é da mocidade mesmo. Das paixões arrebatadoras da adolescência, da ilusão de poder que tínhamos nessa idade, dos sonhos do que íamos ser quando “crescêssemos”… De coisas que hoje em dia não existem mais e que eram tão boas. Das serenatas. Ah, as serenatas!!!
Dois jovens apaixonados, uma janela, um violão… Algumas vezes o jovem cantor não se arriscava sozinho e levava um ou dois amigos.

Passei um pedaço da minha adolescência em João Pinheiro, cidadezinha do interior de Minas Gerais e de lá tenho doces lembranças das tão emocionantes serenatas.
No começo, eram para minha irmã mais velha. Eu era só uma pirralha de 11 anos. Mas, romântica de nascença, quase sempre era a primeira a acordar, ao menor som de um dedilhar de violão…
Algum tempo depois, quando já era eu a adolescente, morei novamente na pequena João Pinheiro e fui, algumas vezes, alvo das tão esperadas serenatas.
Em minha casa, todos amávamos esses momentos. Principalmente meu pai. Muitas vezes, ele acordava primeiro e corria a nos chamar. Íamos todos pra janela, pra espiar por alguma frestinha.
Não se usava abrir a janela, ao menos enquanto o “Romeu” não terminasse sua declaração de amor em forma de canção. Corria-se o risco do rapaz ficar tão constrangido que desafinasse.
Quando a música estava quase chegando ao fim, era costume piscar umas duas ou três vezes a luz, para que o menino soubesse que tinha sido ouvido. Era um sinal de agradecimento também.
Às vezes, o rapaz ia embora e a gente voltava a se deitar, mas dormir? Ah, era difícil. Se tínhamos sido o alvo da serenata, era impossível retornar ao sono. A ansiedade pelo amanhecer, quando poderíamos ver nosso Romeu era imensa. E quando acontecia, quase sempre os olhares eram tímidos, disfarçados, acompanhados pelo bater descompensado do coração…
Em alguns casos, abria-se a janela, o jovem cantor apaixonado oferecia uma flor…
Mas em minha casa, era sempre diferente. Meu pai era quem fazia questão de abrir, não apenas a janela, mas a porta. O cantor e seus amigos eram convidados a entrar. Minha mãe fazia café, servia com pão de queijo ou biscoitos. Muitas vezes meu pai ia até mesmo pro fogão, fazia galinhada e todos comíamos, enquanto conversávamos animados até o amanhecer.
Alguns anos mais tarde, os jovens apaixonados trocaram os violões pelas fitas cassetes, onde gravavam as músicas preferidas da menina a quem queriam ou estavam namorando. Não era tão bonito quanto as serenatas de violões, mas ainda sim, era emocionante.

Recentemente reencontrei muitos amigos da minha infância e adolescência, graças ao famoso Facebook. Muitos deles, da minha querida João Pinheiro. A emoção, as recordações são inevitáveis. Sim, é saudosismo. Sim, estamos envelhecendo. Mas, afinal, quem não quer envelhecer assim, com lembranças tão doces? Afinal, éramos felizes. E sabíamos!!!

Não me assusta o saudosismo, o envelhecimento. Só lamento que, como diz o escritor Paulo Sant’Ana em sua linda crônica “a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos…”
Especialmente esses, que dividem comigo tantas boas e ternas recordações!!!

DUB…IEDADE!

Musicalmente falando, DUB é (hoje) um estilo musical que surgiu na Jamaica e era, inicialmente, uma forma de remix de músicas reggae.
Já aqui em Belo Horizonte, DUB (www.facebook.com/dubmaletta) é um bar, aberto recentemente, localizado na varanda do tradicional Edifício Maletta. Segundo os donos, o bar veio com uma proposta de modernidade nesse local histórico de BH. O site Divirta-se diz que “o bar Dub se firma como mais uma boa opção do Maletta.
Há controvérsias. O site da Veja BH diz que, “apesar da boa qualidade do cardápio, o atendimento derrapou”.
No meu caso, derrapou e capotou várias vezes. Considerando o que me aconteceu ontem, 10/11, DUB pode ser abreviação de DUBitável ou DÚbio.
O dicionário diz que DUB…itável é aquilo de que se pode duvidar, algo ambíguo, impreciso, incerto. Já DÚB…io é definido como aquilo que se presta a diferentes interpretações; duvidoso, hesitante, indeciso, vago; mal definido.

Começou assim: Decidi comemorar meu aniversário com familiares e amigos e, por indicação de uma amiguinha, que trabalha no DUB, optei por nos reunirmos lá. Troquei algumas mensagens pelo Facebook com ela, pedindo informações sobre o lugar, reservas, etc. Numa dessas mensagens, dia 01/11, escrevi “Acredito que serão entre 30 a 40 pessoas…”.
Quero deixar claro aqui que minha amiga não teve nada a ver com o ocorrido, ela foi super prestativa, gentil e profissional, inclusive fazendo a parte dela em recomendar o estabelecimento onde trabalha.

No dia 3/11, troquei outras mensagens, já com um donos do DUB (Davi). Numa delas, me referindo à quantidade de convidados, eu disse: “Até agora, já temos 20 pessoas confirmadas, mas acredito que chegaremos a 30…”. Ele então me passou o telefone do local e me pediu para ligar para acertamos tudo.
Muito bem. Liguei e fechamos as reservas para as 20 horas do dia 10/11. Eu disse que poderiam chegar a 35 pessoas, perguntei se podia levar um bolo e se minha filha de 17 anos poderia entrar com uma amiga. Ficou tudo acertado. Coloquei os dados do local no evento criado no Facebook e fiquei toda feliz, preparando lembrancinhas para oferecer aos meus convidados. Tudo bobaginhas, mas feitas com muito carinho. Incluí o dono do DUB e minha amiguinha que trabalha lá na lista das lembrancinhas.
Finalmente o dia 10 chegou. Às 19 horas liguei para o DUB para ver se estava tudo ok e para avisar que eu já estava indo, pois queria deixar tudo preparado para quando meus convidados chegassem. Colocar uns crachazinhos divertidos que eu fiz para todos e as lembrancinhas nos lugares de cada um…
Seria uma noite muito divertida. E foi. Mas não lá!

A pessoa que me atendeu quando liguei (Bárbara) disse que não havia nenhuma reserva em meu nome, mas que ia ligar pro dono e ver com ele. Já fiquei meio aflita. Ela me retornou minutos depois dizendo que tinha sim, a reserva, que meu nome apenas tinha sido anotado de outra forma. (Será???).
Perguntei novamente, para garantir, se estava tudo ok e ela me disse que sim, mas que só tinha lugares sentados para 12 pessoas. Quando eu falei que seriam mais pessoas, conforme minha conversa com o tal Davi, ela disse que não tinha jeito. Que a casa só comporta 60 pessoas e que não poderia colocar meus convidados todos assentados. Que conseguiria, no máximo uns 20 lugares.

O dono do DUB me ligou então e tivemos uma conversa muito desagradável. Ele disse que eu não tinha deixado claro o número de pessoas, o que não é verdade, já que numas das mensagens eu disse que poderiam chegar a 30 convidados e depois, por telefone, falei que seriam entre 30 a 35 pessoas. Ele disse que as pessoas nunca chegam juntas num evento, umas chegam mais tarde, outras vão embora mais cedo, que alguns convidados poderiam ficar no balcão, de pé, circulando, que a gente ia se ajeitando, etc.
Expliquei a ele que não, que íamos comemorar um aniversário. As pessoas iriam todas, pretendíamos nos assentar, beber, comer e eu não ia deixar uma parte dos meus convidados de pé, esperando que uns fossem embora para outros se assentarem.
Não houve jeito. Ele mal me deixava falar e finalmente perguntou se eu ia querer desse jeito mesmo, porque se não quisesse ele tinha muita gente ligando e querendo fazer reserva.

Foi uma situação muito chata, fiquei muito nervosa. Como conseguir um outro local que aceitasse receber essa quantidade de pessoas assim, de última hora, sem ter feito reserva antecipada? E pior, eu não tinha o celular de todo mundo, alguns de meus convidados eu só tinha o contato pelo Facebook. Alguns estavam vindo de Sete Lagoas, já estavam na estrada.
Foi um sufoco e uma tristeza muito grande pra mim, que gosto tanto de fazer tudo sempre direitinho, organizadinho. Consegui, com a ajuda de amigos, encontrar um lugar bacana, sem frescura, sem ares de querer ser o “novo point cult” da cidade. O Ponto do Espetinho, (www.facebook.com/ponto.doespetinho.7?ref=ts&fref=ts) no Santo Antônio. Mesmo estando com dois garçons ausentes, eles nos receberam com muito carinho, alegria e até participaram da nossa comemoração.
A noite foi agradável e alegre mas não consegui avisar algumas pessoas que acabaram indo ao DUB…itável e saindo sem entender nada. Hoje falei com essas pessoas, me desculpei muito. Como meus amigos são pessoas super bacanas, ninguém ficou chateado comigo. Mas a sensação de tristeza e decepção no meu coração vai levar um tempo pra acabar.

Então, amigos, se querem tomar uma cervejinha, comer um petisco ou comemorar alguma coisa no Maleta, cuidado. Escolham com carinho. Tem muitas opções bacanas lá. E sem DUB…iedade!!!

Muito bem, aqui estou eu de novo. De volta. Preparada para continuar, para tentar novamente. Por livre e espontânea pressão, precisei de um tempo. Brinco que foi um período de TPM: Tempo Para Mim.
Claro, não tirei esse tempo assim, por iniciativa própria, para descansar ou refletir, como muita gente gosta de fazer de vez em quando. Me afastei, quem me acompanha sabe, para mais uma etapa do tratamento contra o melanoma. As metástases se espalharam um pouco mais e fui  submetida a uma cirurgia chamada esplenectomia e pancreatectomia. Isso quer dizer que foram retirados o baço e um pedaço do pâncreas, que a medicina chama de “cauda” do pâncreas. Eu nem sabia que o danado tinha cauda… 🙂
Dessa vez estive um pouco mais nervosa. Não antes da cirurgia. Eu sei que vou estar sedada, então, normalmente não fico muito ansiosa. O pós é que foi complicado. Já falei aqui como sou mole com dores. Aguento exames complicados, cirurgias, podem me virar do avesso, mas quando sinto dor, me descontrolo.
Já na sala de recuperação, quando acordei, senti dores horríveis. Era como se estivessem me dando punhaladas no abdômen, debaixo das costelas, até as axilas e pescoço. Só fui saber, no segundo dia, que, como uma parte da cirurgia foi por vídeo, o médico injeta CO2 para expandir o abdome. Esse gás não pode ser expelido pelas vias naturais, nem por cima e nem por baixo, se é que vocês me entendem. Ele vai sendo consumido aos poucos pelo próprio organismo. Então, ele fica circulando no corpo da gente, procurando cavidades onde se alojar e isso provoca as dores. Felizmente, o anestesista permaneceu durante um tempo comigo na recuperação e graças a ele e uma dose dupla de morfina as dores melhoraram.

Como sempre, minha família esteve ao meu lado o tempo todo. Às vezes, quando falo sobre minha família, algumas pessoas costumam achar que sou muito coruja, que qualquer família faria isso por um parente doente, etc. Mas não, gente. Me considero privilegiada e abençoada por poder contar com cada um deles. É um amor incrível, uma dedicação natural. Todos deixam tudo de lado para estar comigo. Isso é o que me ajuda a ter coragem para prosseguir.
Saí do hospital direto para a casa da minha irmã caçula, num sítio afastado de Belo Horizonte. É um lugar lindo, cheio de verde, um clima muito gostoso, uma paz indescritível. Lá também fui cercada de mimos e claro, aproveitei. Temos uma amiga muito querida, a Cida, que trabalha com minha irma, que não mede esforços pra me agradar. São comidinhas especiais, chazinhos, suquinhos… enfim, tanto carinho que não tenho palavras para agradecer.

Agora, o próximo passo será o retorno às quimioterapias. Dia 15 tenho consulta na oncologia e será decidido quando e como será dessa vez. Essa parte me chateia bastante. Sou aquela, lembram, que sente todos os efeitos colaterais dos medicamentos. Mas uns amigos me indicaram um medicamento que, dizem, é fantástico contra os enjôos das químios e pretendo experimentar. Também aprendi com esse tempo todo alguns macetes, uns tipos de sucos e alimentos que me fazem muito bem. Suco de graviola, de carambola, picolé de limão, gelatina… Como em tudo tem coisas boas, trocamos muitas idéias lá na oncologia e um ensina o outro coisinhas que vão nos ajudando a suportar melhor. Então, me sinto preparada para mais essa etapa.
Aproveitei esse período de “TPM” para ler e fortalecer meu espírito também. Assim, espero enfrentar com coragem esse novo tempo que vem vindo.

E falando sobre tempo, como não poderia deixar de ser, termino esse post citando meu querido Rubem Alves, que parece ter sempre a palavra certa, no momento certo…

“O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro.
Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber: centésimos de segundo. Que posso sentir num centésimo de segundo? Que posso viver num centésimo de segundo? Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas”: “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”.
Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias. Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração. Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.“

“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.”

E então, eu escolho o tempo medido pelas batidas do coração. E o aproveito para me dedicar ao que é essencial para mim: vocês todos. Minha família, meus amigos!!!
Obrigada pelo tempo que temos tido juntos. Que ele seja sempre muito bem aproveitado. E feliz!

Essa semana tive um pequeno surto de desespero. Comecei a entrar em crise por achar que não estava correspondendo ás expectativas das pessoas. Tive algumas complicações decorrentes da doença, não conseguia dormir muito bem durante alguns dias, fiquei uma pilha e tive umas crises de choro. E percebi que eu estava tentando assumir uma postura de fortaleza por conta das cobranças das pessoas.

Aconteceu que um dia eu me queixei pra alguém e ouvi essa resposta: “Mas você não pode fraquejar. Você não pode duvidar das pessoas que te amam. Tá todo mundo te dando força, todo mundo torcendo e rezando por você. Se você desanimar, como é que a gente fica?”

Nossa… me senti o verme do cocô do cavalo do bandido nessa hora. Eu não tinha o direito de decepcionar as pessoas! Aí, a pressão foi subindo, subindo… e eu explodi!
Felizmente, Deus sempre providencia anjos pra cuidar de mim. Tem acontecido com muita freqüência. Não sei se estou mais sensível por conta da doença, se é coincidência, se sou muito mística… mas sempre que começo a me abater, me sentir mais cansadinha ou enfraquecida, alguém, inesperadamente, me envia um cartão, um e-mail, um recadinho no Facebook. Dessa vez veio de uma pessoa que nem é assim tão chegada. Nem foi especificamente pra mim. Na verdade era um desses e-mails alertando pra um tipo de golpe que vem sendo aplicado por aí. Pra ser sincera, nem me lembro o golpe. Mas no final, após a assinatura havia um pequeno texto da Clarice Lispector, que eu amo.

“Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.” (Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo)

Que alívio ler isso!  Yes, woman, can cry!!!
Porque, tenho que confessar, gentem… tem hora que é complicado. Sei que às vezes fico meio rebelde. Acho até que sou um tanto ríspida com alguns colegas e quero pedir perdão por isso.

Mas como eu já postei aqui, tem momentos que simplesmente não dá pra gente ser forte e ter só pensamentos positivos. Não quer dizer que estou perdendo a esperança ou desistindo. Mas algumas pessoas, por melhor que sejam as intenções e eu sei que são, se esquecem que eu sou só um ser humano. Não sou uma menina super poderosa, uma heroína, uma guerreira. Estou fazendo tudo o que posso. E às vezes, o que posso é chorar. Não como uma derrotada. Mas pra botar pra fora a pressão, a angústia, o medo. É bom chorar de vez em quando sem sentir culpa.
Claro que eu queria estar mais alegre. Queria vir mais frequentemente aqui no Nanbiquara… plantar minhas abobrinhas, como antes. Mas no momento, não tá dando mesmo. Então, enquanto isso, só posso agradecer a força de todos e  pedir que compreendam.

Bom… aproveito pra contar as últimas novidades… porque tem muita gente me pedindo notícias.
Estive de molho uns dias, tomando antibióticos, por conta de uma infecão. Aproveitei essa folguinha e fui pra Piratininga (SP), pro níver da minha sobrinha neta, a princesinha Valentine.
Aproveito pra me desculpar por não ter te procurado, Nádia Tayar… queria muito te conhecer… E eu tava tão pertinho!!! Mas foi uma correria grande, eu sou a responsável pelas lembrancinhas nos “nívers” da família e tinha tanta coisa pra fazer. Além disso, minha sobrinha trabalha o dia todo, eu não quis pedir carona pra Bauru… Mas prometo que da próxima dou um jeitinho, tá?
Bom, de volta a BH, precisei tomar umas vacinas que são necessárias em casos de retirada do baço. Uma forma de proteção, já que o baço é o responsável pela produção de anti corpos e sem ele ficamos mais vulneráveis. Tomei 4 no mesmo dia. E claro, eu sou aquela que tem todos os efeitos colaterais, lembram? Então tive febre, inchaço, dor… Mas, graças a Deus durou pouco, em 3 dias eu tava nova.
É preciso aguardar 15 dias após as vacinas, que é o tempo que o baço leva pra processar a imunização. A cirurgia então foi marcada para o dia 18/09, às 14 horas, no Mater Dei. Acredito que ficarei uns dois ou três dias apenas no hospital. Mas quem puder dar uma passadinha lá, vou gostar muito. Porque fico muito manhosa quanto to internada, viu?  🙂
Vou dando notícias até lá. Beijo a todos!!!

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